sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Prazer, meu nome é ninguém.

Percebo que me tornei uma pessoa impaciente com certas apresentações. O que importa é o que você faz, não o que é. Eu já estava acostumada a algo como Prof. Dr. fulano de tal, mas isso se tornou extensivo há quase todo mundo!
- Esse é o meu amigo jornalista Pedro, - Essa é a arquiteta Cláudia, e por aí vai. Sua função ou cargo tornou-se o primeiro nome e o seu nome está mais para sobrenome. Se te apresentam pelo primeiro nome -Essa é a Maria, pode esperar os possíveis questionamentos - Sim, mas que Maria? Faz o que e onde? Para talvez tornar-se digna de futuros contatos.
Eu quero ser somente eu. Nesse caso, um ninguém, aos olhos de tantos. Quero ser alguém, ou melhor, um ninguém que é apenas humano, terráqueo, do sexo feminino. Que gosta de sol, da cor preta e de sorvete de coco. Toma suco de laranja pela manhã e leite à noite, não come rabada, mas adora fígado, ouve músicas, lê livros, dorme e sonha. Isto já é suficientemente interessante para um ningúem.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Tentando ser sexy

O título da banda Cansei de ser Sexy me faz refletir sobre esse mundo de aparências e que hoje não existe mais gente feia, basta estar bem produzido ou poder bancar uma boa plástica. Dia desses, e não pela primeira vez, ouvi alguém se utilizando do título da banda ao ser questionado sobre sua aparência não tão impecável e por estar acima do peso. Acho divertido e até fico feliz quando vejo que algum ser humano está cansado de ser sexy, de estar sempre bonito ou bem vestido. Acho ótimo!
Passei a minha infância me rebelando contra os vestidinhos, frufruzinhos e meias-calça. Na adolescência fazia de tudo para ser o menos feminina possível, usando enormes camisetas pretas com nomes de banda( certamente a velha necessidade de autoafirmação, da qual não me envergonho) e bermudas dois números acima. Sempre me preocupei em estar confortável, nunca bonita.
Tenho saudades desse tempo, que não tinha como cansar de ser uma coisa que nunca fui: sexy.
Depois dos vinte anos de idade e alguns engorda-emagrece, percebi que faz tempo que estou tentando ser sexy,sem sucesso. Tenho um medo enorme desse limiar entre o sensual e o vulgar! Continuarei tentando e aceito dicas dos que já cansaram.

Torcida inglesa

Amor para os brutos
Vida longa para os mortos
Telenovela para o povo
Pérola aos porcos

Argumentos perfeitos
Ocasiões erradas
Tropas para o embarque
Canoas furadas

Jardineiros do Saara
Camponeses do asfalto
Vendam mulatas
Trafiquem araras

Torcida inglesa
Mutuários do limbo
Mudem a semana
Digam não ao domingo

Faça um filho e filie-se
Plante uma árvore e desarvore
Escreva um livro e livre-se
Morra, mas não chore

Lágrimas de crocodilo
Coração de silicone
O olfato é o do rato
O ódio é o do homem

Ócio para as máquinas
Paz na Terra para a Terra
Estatutos do caos
Guerra no Pacífico

( Lula Queiroga)

Livro de carne


Somos todos livros de carne
De nervos, de sangue
Apodrecendo na prateleira
(2007)
( Foto: Livro de carne- Artur Barrio- 1978/1979)
Não sei se tenho algo de interessante a dizer.
Direi assim mesmo!

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Senhas

Eu não gosto do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto
Eu aguento até rigores
Eu não tenho pena dos traídos
Eu hospedo infratores e banidos
Eu respeito conveniências
Eu não ligo pra conchavos
Eu suporto aparências
Eu não gosto de maus tratos
Mas o que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto
Eu aguento até os modernos
E seus segundos cadernos
Eu aguento até os caretas
E suas verdades perfeitas
O que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto
Eu aguento até os estetas
Eu não julgo competência
Eu não ligo pra etiqueta
Eu aplaudo rebeldias
Eu respeito tiranias
E compreendo piedades
Eu não condeno mentiras
Eu não condeno vaidades
O que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Não, não gosto dos bons modos
Não gosto
Eu gosto dos que têm fome
Dos que morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem

( Adriana Calcanhoto)